Paulistinha e o calote na Cultura
Prioridades: enquanto o Fundo Municipal de Cultura opera com menos de dois milhões, a prefeitura achou onze milhões pra homenagear desenhista e criar o novo mascote da cidade
Só a prefeitura de São Paulo pra me fazer odiar um personagem do Maurício de Sousa. Pra quem cresceu abraçada em revistinha e do Almanacão de férias, isso não é pouca coisa.
A nova palhaçada da gestão tenebrosa de Ricardo Nunes é o Paulistinha.
Já começa errado: quem nasce na cidade de São Paulo é paulistano. Paulista é quem nasce no estado de São Paulo. Pode-se argumentar que todo paulistano é paulista? Sim. Vamos fazer isso? Não, pois estamos com ódio e você entendeu.
Mas vamos fazer umas continhas? Em 2025 a gestão Ricardo Nunes deixou de empenhar R$ 37,1 milhões dos R$ 159,7 milhões previstos para o fomento à cultura na cidade. Não gastou “mal”: NÃO gastou. Treze dos quinze programas ficaram abaixo do combinado. Isso está no informativo da bancada do PT na Câmara, que cruzou os dados com a Lei Orçamentária Anual. Aqui a gente trabalha com dados e com Portal da Transparência, tá, fake news fica ali, pode entrar na primeira à direita.
Em março deste ano veio o segundo ato: o Decreto nº 65.010/2026 tirou R$ 70,6 milhões dos R$ 72,5 milhões que a própria Câmara tinha aprovado para o Fundo Municipal de Cultura. TIROU. Sobrou R$ 1,9 milhão para uma cidade de mais de onze milhões de habitantes. Menos de VINTE CENTAVOS 0,20 por paulistano para financiar teatro, dança, orquestra, circo, samba, literatura, cultura em geral. Toda a cultura.
No dia 1º de abril os trabalhadores da cultura foram pra rua. Sindicatos e coletivos culturais se concentraram em frente ao Teatro Municipal e caminharam até a Secretaria de Cultura. Citaram a demolição sem aviso prévio do Teatro de Contêiner, da Companhia Mungunzá e a ameaça de despejo ao Samba do Cruz, ponto histórico da cultura negra na Zona Norte.
Curiosidade: enquanto o edital de fomento periférico atrasa desde 2023, a prefeitura abriu mão de cobrar R$ 2,7 milhões pela cessão do Autódromo de Interlagos ao Lollapalooza, virando “apoiadora institucional” do festival DE GRAÇA. A Agência Pública, na série Festival de Irregularidades, ainda achou R$ 4,2 milhões em 66 shows contratados sem fiscalização adequada entre 2023 e 2025, boa parte concentrada no calendário eleitoral de 2024, e R$ 5,1 milhões pagos a catorze artistas de audiência com três ouvintes em plataformas de streaming, alguns cobrando cachê maior que gente consagrada. Um cantor aí, ex-vereador, faturou R$ 4,6 milhões em 43 shows sozinho. Bate logo na cara dos trabalhadores da cultura dessa cidade que dói menos.
Pois duvido que tenham atrasado o salário do Paulistinha. Quer dizer, dos Estúdios Maurício de Sousa.
Quero que prestem atenção nas palavras: TRABALHADORES DA CULTURA. Pessoas que trabalham no segmento, não apenas os artistas que o senso comum infeliz já colocou a pecha de vagabundos faz tempo. Tem técnica, logística, produção, transporte. Pra eles não tem verba. Quem depende de edital público, que é fiscalizado, tem prestação de contas, é avaliado por mérito, esses não recebem.
E é com o Fundo de Cultura nesse estado que a prefeitura decidiu que o investimento urgente da vez era pra quem?
Pro Paulistinha.
Paulistinha foi criado por Mauricio de Sousa em parceria com o instituto que leva o nome dele para comemorar os 90 anos do cartunista. Legal, Maurício, parabéns. Mônica era minha melhor amiga.
A importância de Maurício é inquestionável e é claro que ele merece reconhecimento. Marcos Saraiva, neto do cartunista, presidente executivo do Instituto Mauricio de Sousa e diretor executivo na MSP Estúdios, ressaltou que foi o próprio Mauricio que pediu que fosse criado um mascote de presente para a cidade de São Paulo. Que linda homenagem!
Mas vamos falar de dinheiro? Aqüé? Tutu? Bufunfa?
O pacote completo da homenagem, que inclui desfile com carros alegóricos no Sambódromo do Anhembi, 91 esculturas espalhadas pela cidade, banco de bronze na Avenida Paulista, distribuição de gibis e oficinas na Biblioteca Mário de Andrade está orçado em R$ 11 milhões, bancados pela administração municipal, segundo apuração da Folha de S.Paulo repercutida por Metrópoles e outros veículos.
Onze milhões. Onze. Enquanto isso, o Fundo Municipal de Cultura, que deveria sustentar centenas de projetos de fomento pela cidade inteira, opera com menos de dois milhões. Repetindo, menos de vinte centavos por pessoa na maior cidade da América Latina.
Não vou nem tocar nos 108 milhões da “ONG” que devia instalar pontos de Wi-Fi “nas periferias” e acabou no bolso do Pangaré Sombrio, produção cinematográfica da família Bolsonaro. Eu sei e você, se não sabia antes, agora sabe.
Procurei quanto exatamente foi pago só pelo personagem, separado do resto do pacote, já que ele é a estrela da campanha e alardeado como novo mascote da cidade. Portal da Transparência, Diário Oficial, seção de dispensa e inexigibilidade de licitação. Nada. Está no pacote. A prefeitura mais transparente do mundo, aquela que exige prestação de contas linha por linha de quem recebe alguns milhares de reais de fomento pra cultura periférica, não sente a menor necessidade de detalhar o contrato de um personagem infantil de nove anos que tem até página oficial no site da prefeitura. Pra divulgar as homenagens a seu criador. Tá bom pra vocês?
Mas tem mais. Ontem tomei um anúncio do Paulistinha na fuça antes de um podcast na plataforma de streaming. Aquilo nem é o mesmo pacote dos R$ 11 milhões, é outra campanha, com outro contrato, outra verba, e eu ainda não consegui confirmar de qual secretaria ou órgão ela saiu.
Quer dizer, o personagem virou ativo reaproveitável, cada área da prefeitura pode abrir sua própria verba de publicidade pra usar ele, e cada uma dessas verbas é potencialmente um contrato separado, escondido em rubrica separada. Procurei os valores no Portal da Transparência, na seção de Investimentos em Publicidade. O histórico disponível só vai até o semestre de 2025, essa campanha é de 2026. Ou seja, o dinheiro pode estar saindo agora, rios dele, e nós só vamos poder conferir daqui a meses, quando ninguém mais estiver olhando.
Mas pra cultura não tem. Vai, tripudia do dinheiro do cidadão, Gestão Nunes.
Fica a pergunta pro Paulistinha, que segundo o roteiro oficial vai estrelar campanhas de conscientização pela cidade.
Na apresentação do personagem, em 12 de junho de 2026, o prefeito Ricardo Nunes declarou que o Paulistinha “será a figura central de campanhas de conscientização pública, atuando em ações voltadas para a importância da vacinação, preservação ambiental e plantio de árvores”. Isso foi publicado pelo Meio & Mensagem.
Será que alguma delas vai ensinar às crianças sobre como funciona um calote?
E cuidado com o celular na rua.
Trouxe alguns conselhos e perguntas do pessoal lá no Instagram da prefeitura. Fique com o amor dos fãs 💕











Você escreveu o texto que eu estava enrolando para escrever.
Clara, também fiquei puto porque além de tudo Paulistinha é um plágio, afinal esse personagem já havia sido criado pelo governo do Estado de São Paulo na gestão Marin (ou Maluf). Tenho na coleção o paulistinha original até hoje.
Sou muito fã de todo o universo Turma da Mônica, e fico muito triste de ver essa "homenagem" ser aproveitada por um político em ano de eleição.