ARTE É TRABALHO
O desabafo de uma escritora embucetada sobre o mito do artista vagabundo
Chamar artista de vagabundo é um hobby nacional antigo, muito antes do bolsonarismo virar sinônimo de ignorância orgulhosa. O bordão já existia na boca do tio de churrasco décadas antes de virar política de Estado, porque não passa de desconfiança de quem opera fora da norma disfarçada de crítica de produtividade. A figura do artista incomoda porque, nesse estereótipo, ela não bate cartão ou usa crachá ou tem chefe e prazo, e pra cabeça treinada a admirar hierarquia, isso soa como deboche ao sistema. Como se não fosse trabalho. Arte é trabalho.
A graça é que esse desprezo nasceu junto com o próprio capitalismo industrial. Quando o chão de fábrica foi estabelecido como régua de valor, o tempo cronometrado passou a sinônimo de único trabalho sério. O resto era enrolação. O artista agora era o parente estranho da reunião de família do capital: existe, produz coisas que todo mundo consome, mas ninguém quer reconhecer que aquilo também é trabalho que cansa e exige disciplina, porque reconhecer isso obrigaria a pagar direito pelo trabalho. Arte é trabalho.
E aqui cabe desmontar um mito preguiçoso que atravessa até gente “distraída” de esquerda: a famosa Lei Rouanet, que muitos citam, mas não fazem ideia de como funciona, não nasceu de governo progressista, esquerdista, comunista. Foi sancionada em 1991, no governo Fernando Collor, naquele liberalismo econômico raso lotado de escândalos de corrupção que nos ensinou a palavra impítima. A lei carrega o nome de Sérgio Paulo Rouanet, diplomata e intelectual, e a arquitetura fiscal por trás dela é puramente liberal: renúncia fiscal, que nada mais é que a iniciativa privada decidindo o destino de verbas públicas e o Estado abrindo mão de impostos em vez de financiar cultura direto com orçamento próprio. Ou seja, o mecanismo que a direita bolsonarista adora chamar de esquerdopatia é filho do próprio pensamento econômico liberal que ela finge defender. Ou nem finge, porque não faz a menor ideia do que está falando.
Isso expõe a mentira estrutural do discurso. Se fosse um debate sério sobre modelo de financiamento cultural, a direita estaria criticando a lógica de mercado decidindo sobre cultura, não o suposto viés ideológico dela. É outra coisa. É a mesma engrenagem antiga do capitalismo industrial reaparecendo com glitter e cílios: quem não produz segundo a lógica de fábrica é vagabundo, e quem questiona a hierarquia através da arte é duplamente vagabundo, porque além de não bater cartão ainda tem a ousadia de pensar.
Chamar artista de vagabundo é uma forma de manter todo tipo de trabalho que não se curva no lugar de menor valor possível, pra que ninguém questione por que o trabalho que realmente concentra riqueza nesse país é o que menos precisa se explicar.
O verdadeiro parasita da cultura, isso eles fingem que não vêem, é o sertanejo agrocorno que fatura mais de cinquenta milhões em dinheiro público sem licitação, sem teto e sem prestação de contas, ainda por cima usando o microfone pago pelo povo pra chamar artista “esquerdista”(um termo merda que nem devia existir) de mamador de ruanê.
E pra fechar com chave de ouro, enquanto a abstrata “periferia” (qual, eu me pergunto?) esperava pontos de internet gratuitos prometidos num contrato de 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, a grana foi parar na produção do Pangaré no Escuro, aquele filme que talvez nem estreie. Uma ONG virou produtora que virou lavanderia, e nada se explicou até agora. O “irmão” Vorcaro, mafioso do Master preso por fraude bilionária, meteu 134 milhões na cinebiografia delirante de herói do véi buchudo, enquanto quem trabalha em cultura de verdade briga por cachê de dois mil.
Mas os vagabundos somos nós.
Então tá bom.



Texto urgente e necessário. Sinto-me representado por tudo o que vc desabafou. É bem isso. Na pele, todo santo dia. Valeu pla reflexão. Sou seu fã há tempos.
Esse texto é um serviçoà comunidade 👏👏👏