A faísca e o fogaréu
Apresentação do meu livro novo "Sim, nós estamos com raiva"
Eu não sou uma escritora feminista. Sou uma feminista que é escritora.
Mas não foi sempre assim.
Minha mãe dizia: “não seja como as outras”. E eu não queria ser mesmo. O que me apresentavam como ser mulher era um conjunto de regras que eu não tinha a menor vontade de seguir. Mas isso não era feminismo, era apenas a rejeição de um estereótipo, e acabei me aproximando de grupos de homens que eu ficava feliz em impressionar com as coisas que eu sabia “não sendo como as outras”. Eu ainda não sabia que as outras eram eu. Eu era as outras.
Venho de um lar muito peculiar; sou filha de artistas que são pessoas incríveis e não houve imposições de papéis de gênero ou de padrões de comportamento na minha criação. O reforço positivo junto com os livros adquiridos com 90% de desconto na Feira do Livro de Porto Alegre me forjaram como sou. A Secretaria de Cultura da Casa também: era criando arte que se conseguia uns troquinhos.
Sendo assim, comecei a escrever muito cedo e publiquei meu primeiro livro aos 22 anos; um livro que foi cuspido com urgência, mas também consciência de que estava criando uma anti-heroína e da história que eu queria contar. Quando o livro saiu, descobri que eu não podia usar a vida como matéria-prima, criar uma personagem hedonista que buscava sua subjetividade, liberdade e autonomia vivendo como uma jovem solteira e dura na São Paulo do começo dos anos 2000. Eu não podia, e num primeiro momento não entendi o porquê.
Mas não demorou muito.
Queriam me rotular como “literatura feminina”, eu negava e perguntava o que era, então, a literatura masculina. Ué! Que rótulo era aquele? O incômodo veio forte porque saí do cercadinho que o patriarcado destinava às escritoras. Especialmente às jovens. Escritora boa era escritora idosa ou morta: só assim vinham as edições de capa dura e os elogios. Mas eu nunca me importei muito com os elogios ou as críticas, eusó queria escrever; não me interessavam e nem me interessam os título e a puxação de saco dos pares. Eu queria escrever pra existir. Acho que trouxe um bonde pra existir comigo.
Ninguém nasce feminista; aliás, ninguém nasce NADA. Somos folhas em branco, mas logo os marcadores de gênero nos colocam nos devidos lugares e ditam quem pode e quem deve fazer o quê. Assim como não se nasce mulher, torna-se, fui me tornando feminista; as fichas foram caindo ao longo do tempo e eu finalmente comecei a enxergar as coisas ainda de uma forma confusa e, como sempre, comecei a escrever pra tentar entender. Escrevendo, encontrei outras mulheres que pensavam como eu, e elas me mostraram outras mulheres que já pensavam como nós e tinham muito a nos ensinar.
Quer dizer, nós é que pensávamos como elas, né?
E aí é que a gente vê o tamanho do buraco. Se, nos anos 80, Lélia Gonzalez já estava falando de questões de gênero, raça e classe, se Angela Davis a reconhecia e reverenciava, se havia tanta produção de feministas negras que não era difundida justamente por apontar esses rombos que existem na nossa sociedade, se o feminismo era visto como algo ultrapassado só porque na base de muita luta as mulheres conquistaram alguns lugares, ali mesmo que eu queria estar. Com elas. As outras.
Mais de 10 anos depois do lançamento do meu primeiro livro, estreei uma coluna feminista no site da Carta Capital. Eu fui a primeira lá, e, de novo, levei um bonde comigo. E outro bonde quando fizemos o Lugar de Mulher, em 2014. Nisso, outros bondes vinham se criando; as mulheres vinham se organizando muito com a ajuda da internet, quando começaram a se ler, se escutar e se reconhecer. E quando nos damos conta que o problema não é apenas pessoal, que o pessoal é político e que o problemaé estrutural e não individual, a coisa muda de figura. E é aí que a rua se torna inevitável. Não se faz revolução de casa e nem pedindo por favorzinho, e é só com espírito revolucionário que existe chance de mudança.
Este livro é um apanhado do meu processo. O processo de uma escritora que se tornou feminista. Escritora feminista é quem cria teoria, eu apenas escrevi o mundo como eu via. E ele também não segue uma ordem cronológica. Começa na faísca, termina no incêndio. Acho que podemos chamar de temperatura, porque o processo não se deu de forma linear; o fogo aumentava e diminuía até tomar conta de tudo.
No começo, não queria ser percebida como uma feminista raivosa e escrevia de uma forma quase ingênua e didática; hoje eu sou mesmo uma feminista raivosa. Como não sentir raiva? Mas não podemos deixar que ela nos consuma; a raiva tem que ser uma força motriz e um agente de mudança, não um fogo sem controle, senão acabamos por nos autoimolar. E não é isso que queremos. Queremos mulheres vivas, plenas, felizes.
Queremos existir nos nossos termos.
Este livro é pra todas as mulheres que cruzaram o meu caminho. As que se foram, as que ficaram, as que sumiram e as com quem eu rompi. As que nunca soltaram a minha mão. As que eu nunca conheci, mas que deixaram seus saberes por escrito e através da oralidade. Todas elas fazem parte da mulher que me tornei.
Eu sei que não vou ver a queda da machulência, mas tenho certeza que fiz parte da centelha da minha época. Parte de algo imenso que só existe quando se entende o real sentido de coletividade.




Me identifiquei tanto...como posso querer louvar a humanidade e escrever para a humanidade, se me categorizam como mulher e inferior por isto? Como não bradar? Como não estar com raiva? Pre save garantido!